Canto dos Anjos e suas Harpas


As Marias são lúdicas, brincalhonas, poéticas, defensoras do meio ambiente, encantadoras e alegres. Mas sabem que as vezes a vida não alivia e somos atingindo por tragédias como esta da última madrugada na cidade de Santa Maria. Não pude deixar de lembra de uma recomendação de minha avó: “ Vá com Deus mas não se esqueça que o demônio tem força” e as vezes de uma força brutal.
Sou mãe e avó e já tive a fase dos meus filhos jovens lindos indo para baladas, em discotecas, boates, viagens e tantas outras atividade próprias da idade. Se para eles são anos dourados, para nos pais são anos de chumbo.
Lembro das noites que não dormia até eles chegassem. Chegava um, o outro não, e as vezes o fim de semana era inteiro sem fechar os olhos. No coração o medo,  a revolta, e a promessa que quando eles chegassem me pagariam. Naquelas noites ansiava por ouvir o cantos dos anjos e suas harpas, que nada mais era do que o som da maçaneta da porta e o  tilintar do molho de chaves. Assim meu coração se aquietava e finalmente dormia. E a promessa? simplesmente não mais me lembrava, era só alivio.
Ninguém falou mais bonito desta angustia de esperar a volta de um filho do que o poeta Gióia Junior em sua Oração da Maçaneta, que reproduzo abaixo, para quem conhece ou para quem ainda vai torcer pelo som da maçaneta.
Que Deus, o Universo, amparem os corações destes pais e mães,  feridos de morte.  Porque infelizmente nesta ultima madrugada não ouviram mais som da maçaneta que sorri  e nem  tilintar molho de chaves que tem som de uma cantiga de ninar.
Oração da maçaneta

Não há mais bela música
que o ruído da maçaneta da porta
quando meu filho volta para casa.
Volta da rua, da vasta noite,
da madrugada de estranhas vozes,
e o ruído da maçaneta
e o gemer do trinco,
o bater da porta que novamente se fecha,
o tilintar inconfundível do molho de chaves
são um doce acalanto,
uma suave cantiga de ninar.
Só assim fecho os olhos,
posso afinal dormir e descansar.
Oh! a longa espera,
a negra ausência,
as histórias de acidentes e assaltos
que só a noite como ninguém sabe contar!
Oh! os presságios e os pesadelos,
o eco dos passos nas calçadas,
a voz dos bêbados na rua
e o longo apito do guarda
medindo a madrugada,
e os cães uivando na distância
e o grito lancinante da ambulância!
E o coração descompassado a pressentir
e a martelar
na arritmia do relógio do meu quarto
esquadrinhando a noite e seus mistérios
Nisso, na sala que se cala, estala
a gargalhada jovem
da maçaneta que canta
a festiva cantiga do retorno.
E sua voz engole a noite imensa
com todos os ruídos secundários.
-Oh! os címbalos do trinco
e os clarins da porta que se escancara
e os guizos das muitas chaves que se abraçam
e o festival dos passos que ganham a escada!
Nem as vozes da orquestra
e o tilintar de copos
e a mansa canção da chuva no telhado
podem sequer se comparar
ao som da maçaneta que sorri
quando meu filho volta.
Que ele retorne sempre são e salvo,
marinheiro depois da tempestade
a sorrir e a cantar.
E que na porta a maçaneta cante
a festiva canção do seu retorno
que soa para mim
como suave cantiga de ninar.
Só assim, só assim meu coração se aquieta,
posso afinal dormir e descansar.

4 comentários:

KINHA disse...

Olá Cininha

Realmente não havia melhor música para os meus ouvidos e meu coracão.
Uma ótima noite para vc...

AMIGA da MODA by Kinha

rossichka disse...

I don't understand anything of your words... But this angel is so different from all the rest, so sad, that I want to tell her: "Don't worry, you'll find your sweetheart!":0)

Tina Bau Couto disse...

Lindo poema!
Vou guardar e compartilhar.
Arpas no céu, orações nossas aqui na terra e força, muita força para os que ficaram.

Kélcia Seidel disse...

Eu tomo uma medicação para enxaquecaque que me faz dormir pesado,mas durmo preocupada, acordo e pergunto ao meu marido se ela já chegou...ele diz que sim.Que alívio pra minha alma!!Sempre peço a Deus que a torne invisível aos olhos do inimigo.Eu gostava mesmo quando ela gritava do chuveiro:Mãeee,é pra lavar o cabelo?