Diário com destinatário

O diário é a escrita do segredo. Mas o que é segredo? A. Levy explica que a palavra segredo vem do verbo latino  secerno, que significa separar, discernir, ou seja, fazer uma escolha entre quem deve e quem não deve saber um segredo. Cerno significa joeirar, que na colheita dos cereais é o ato de separar o que serve ou não para comer. Cabe ao detentor desse segredo à dura tarefa de guarda-lo ou, na necessidade de revela-lo e escolher a quem fazê-lo.

O simples fato de escrever  significa que o “segredo” já vou externado é pode vir a ser descoberto ou é para ser descoberto. No caso dos diários existem os que têm intensões definidas, ou seja são escritos para um destinatário em especial.

São aqueles diários que são escritos para alguém especificamente ou para um grupo de pessoas, e esta pratica não deve ser tão rara assim. Eu mesma não escrevo um diário, mas tenho reservado caixas de textos e desenhos com a intenção de deixar para meus netos, para que um dia eles saibam quem eu fui.
Busquei na literatura um belo exemplo de um diário com destinatário: No lindo romance de Sussanna Tamaro, “Vá aonde seu coração mandar”. Conta a história de uma avó de 80 anos que faz um diário em forma de carta para sua neta, onde relata a vida de 3 gerações de mulheres de sua família, como um testamento da vida vivida.

Os dias passavam, e eu não conseguia tomar qualquer decisão. E então, está manhã, a sugestão da rosa. Escreva uma carta, um pequeno diário dos seus dias que lhe faça companhia. E aqui estou eu, na cozinha, com um velho caderno seu na minha frente a mordiscar a caneta como uma criança que não consegue fazer dever-de-casa. Um testamento? Não, não exatamente, talvez algo que permaneça no tempo, algo que você poderá ler toda vez que quiser a minha companhia. Não tenha receio, não tenciono pontificar nem entristecê-la desejo apenas bater um papo com a intimidade que antigamente nos unia e que, nos últimos anos, acabamos perdendo. Por ter vivido muito e deixado atrás de mim tantas pessoas, já sei que os mortos não pesam tanto pela ausência quanto por aquilo que, entre eles e nós, não foi dito.”


Mais uma magia dos diários que se revelaram para mim no decorrer deste trabalho.
MariaCininha, Tatiana Kielberman, Lunna Guedes e Raquel Stanick, todas nós fazemos parte do projeto “Diário das Quatro Estações”


Bibliografia:
Lévy, A. “Evaluation étymoligique et sémantique du mot secret” Nouvelle Revue de Psycanalyse, n-14, 1976, p.117.
Tamaro, Susanna. “Vá aonde seu coração” 2001, p.14


Um comentário:

Ingrid disse...

e eu ansiosa aqui...
beijos amada..
dia 06 já está aí hein!.. ;)