Temperatura no Vermelho



Diz a lenda que as roupas têm uma vida secreta. Que à noite se reúnem nos armários para discutir suas vidas e, principalmente, a vida de quem as veste.
Lenda à parte, eu acredito que não exista peça de roupa com mais personalidade e estimulante vida secreta do que um vestido vermelho.
Um vestido vermelho é impregnado de desejo, paixão e erotismo. O vermelho é a cor  dos extrovertidos e do primeiro plano. Marcado pelo simbolismo de duas vivências elementares, o vermelho é fogo, o vermelho é sangue.
A nossa narrativa pessoal passa inevitavelmente pela roupa que vestimos, pela maneira de ficar dentro dela, e pela forma como carregamos esta roupa.
Vestir-se com um vestido vermelho é vestir-se de poesia. Quem não se lembra do lindo vestido vermelho que Julia Roberts usou em 1990 no filme “Uma linda Mulher”? Ou ainda dos vestidos vermelho-sangue e vermelho-vinho das vampiras do filme Eclipse? Ou dos lindos e atemporais vestidos vermelhos de Valentino.
Não é nenhuma leviandade seduzir-se por um vestido vermelho, e, segundo o próprio Valentino, uma mulher de vermelho está sempre magnifica. E eu acrescento: com temperatura do corpo alta!




Este post é parte integrante do projeto “Caderno de Notas – Segunda Edição”, do qual participam as autoras Ana Claudia MarquesIngrid CaldasLuciana NepomucenoLunna GuedesMaria CininhaTatiana KielbermanThelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.

Dicionário poético das Marias Parte 1

Dicionário poético das Marias

Ameaça- Palavra que tem a palavra bandido dentro dela.
Amigo- palavra que tem dentro de si um escudo, não te fere e não deixa ninguém te ferir.
Desfrute – Palavra que tem plantada dentro de si um pé de mexerica.
Maria – palavra que não perdeu a meninice.
Perdão – Palavra que quando se  junta com a palavra dor, vira a palavra imperdoável.

Sozinho – Palavra que não espera por ninguém.

Um Amor que é só amor

São três horas da manhã e estou sentada no tapete sala. Eu e a Lua, minha cachorrinha  de doze anos. Ela anda tendo acessos de tosse, o veterinário já avisou que é o seu velho coração. Isso está me entristecendo muito.
Ela acomoda sua cabeça no meu colo, me olha nos olhos, eu acaricio seu cabecinha, e agradeço por tudo o que ela me ensinou. E falo baixinho:

Com você voltei a brincar e a saudar todas as manhãs.
Com você aprendi que a saudade pode se instalar pela ausência de alguém quando alguém se ausenta só por um minuto ou por vários anos, e que, em qualquer um dos casos, a saudade é quase sempre igual.
Com você eu aprendi a olhar o nada pela janela, só por olhar e ficar ali por quanto tempo quiser.
Com você aprendi que o mundo tem mais mistérios do que eu possa imaginar. E que você sabe o cheiro de cada um deles.
Com você aprendi a ter paciência, a esperar, a ser menos exigente, e reconheci o quanto é gratificante ter você na minha vida.
Com você aprendi o que é companheirismo, e que quem ameaça não é um amigo.
Com você aprendi a tomar vento no rosto um pouco antes de começar a tempestade.
Com você aprendi a comer devagar, a dormir mais e a beber muita água.
Que a alegria deve ser comemorada, anunciada e festejada.
Que você nunca faz cara feia e está sempre disposta a receber e dar um carinho.
Que pra você sou sempre importante, que seu amor por mim é sem limites e que nunca mediu o amor que tenho por você.
Com você aprendi a envelhecer e não deixar a velhice se instalar em mim. Os cachorros guardam o tempo em seus olhos cuidadosamente. Guardam cada minuto, cada hora e cada dia de sua existência, sem revolta pelo tempo passado e sem ressentimento.

Ela adormece ao som dos meus agradecimentos. Saio devagarinho, e ela fica dormindo, no tapete banhada pela luz da lua cheia. Olho aquela cena mágica e penso:

Minha doce Lua. acho que sempre vou me lembrar desta madrugada. Quando você for embora, o mundo não será mais o mesmo para mim.


- este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas - Segunda Edição do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e, a convidada Mariana Gouveia.

Simples assim...


Espaço poético da recordação.



Espaço poético da recordação.
   



...uma imagem poética pode ser o germe de um mundo,
o germe de um universo imaginado diante do devaneio de um poeta.

Gaston Bachelard


Passa das duas horas da manhã quando ela chega em casa. A maquiagem borrada, o cabelo em desalinhado, o par de sapatos altos nas mãos. Abre a pequena bolsa prateada de festa que leva nos ombros e lá encontra uma rosa branca  murcha, que algumas horas atrás tinha recolhido da decoração da igreja.

Ela acaba de casar o único filho e seu coração tem uma mistura de sentimentos que não consegue decifrar. Olha ao redor, está sozinha, se joga no sofá e fica por uns minutos olhando para as paredes da sala, com a rosa murcha nas mãos. Pensa em tomar um banho, mas não tem forças. De repente, seus olhos pousam em um pequeno baú de madeira antigo em um cantinho da sala. Pisando na barra do vestido longo de festa vai até ele e abre sua tampa.


Aquele não é um simples baú, é o livro de sua vida. Ali dentro, cada um dos objetos guardados são como partes de um livro que foram sublimadas, com a mesma finalidade que se sublima partes de um livro para que os momentos e as imagens não se percam.


Os objetos que habitam aquele velho baú guardam em si testemunhos de grandes momentos, e têm com ela uma relação tão íntima que passaram a fazer parte de sua identidade. Ela, com cuidado, coloca a rosa murcha em um cantinho, para eternizar o momento emocionante do casamento do filho.


Afinal, é um velho baú de recordação, mas em nenhum momento de sua vida deixou de ser dinâmico, guarda percurso de sua vida, às vezes, mais intensamente, outras vezes, mais lentamente, pois a história acontece de formas diferentes a cada dia.

Pensa que já foi motivo de chacota por causa daquele velho baú, “mania de guardar coisas velhas”, mas não se importa. Vai até a sacada e olha o céu. Afinal o céu estrelado também é  um velho baú. É uma fotografia tirada a milhões de anos, muitas das estrelas que vê agora já se apagaram.

Ali naquele pequeno espaço está o livro da sua vida, não de folhas escritas, ou anotações de caderno, pequenos objetos biográficos que guardam o visível e o invisível. Guardam histórias vividas e algumas mal iniciadas deixadas pela metade. O que foi ou o que poderia ter sido e não foi. Antes de fechar o baú, acaricia a rosa e sorrir pro dentro. No momento, aquela é a última página.


Este post é parte integrante do projeto “Cadernos de Notas – segunda Edição” do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kierberman, Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia.


Muito boa semana!

Que o verão seja mais brando.
Que a fé seja infinita.
Que a semana seja leve para todos nós.

Menina que eu fui



A menina que eu fui


Para escrever sobre a menina que eu fui, eu desejei ter escrito uma carta para mim mesma quando tinha 10 anos para ser aberta neste momento. E lá nas suas páginas amareladas estaria escrito que eu fui uma menina que acreditava que tinha sempre uma linha geométrica organizando o seu caminho. Tinha medo de escuro e procurava a sombra dos passarinhos nas árvores na noite de lua cheia. Era convencida de que teria asas grandes quando fosse adulta. Acreditava que as flores tinham o poder de curar coração ferido, e que elas, as flores, cantavam baixinho durante a noite. Acreditava nos sonhos e que os sonhos tinham luz que não vinham nem da lua, nem das estrelas, nem do sol, mas da magia interna de quem sonha. Acreditava que ninguém é feliz se não tiver um jardim, porque é lá que se aprende o que é beleza. Que um anjo morava em uma garrafa azul que tinha na prateleira da cozinha. Que a noite procurava estrelas caídas do céu nos cantos do jardim e as luas refletidas nas poças d'água do chão. Que eu gostava de piqueniques, de guarda-chuvas subir em árvores, pular amarelinha e de bala de goma. Gostava de brincar com papel, seguir caminho de formiga e acompanhar os voos dos passarinhos. Uma vez, levantei de madrugada para pegar na cristaleira o relógio de bolso de meu pai só para passar o dia inteiro com ele: foi o dia mais longo da minha vida. Acreditava nas coisas que não existem e descobriu que as certezas tendem a desfalecer. Não sabia tabuada de cor, senti frio na barriga, tinha uma fada e uma bruxa que eram donas da minha imaginação e me apaixonei à primeira vista.


Mas não escrevi uma carta para mim mesma quando tinha 10 anos...

este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas, Segunda Edição do qual participam as autoras Ana Claudia marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e, a convidada Mariana Gouveia.