Um Amor que é só amor

São três horas da manhã e estou sentada no tapete sala. Eu e a Lua, minha cachorrinha  de doze anos. Ela anda tendo acessos de tosse, o veterinário já avisou que é o seu velho coração. Isso está me entristecendo muito.
Ela acomoda sua cabeça no meu colo, me olha nos olhos, eu acaricio seu cabecinha, e agradeço por tudo o que ela me ensinou. E falo baixinho:

Com você voltei a brincar e a saudar todas as manhãs.
Com você aprendi que a saudade pode se instalar pela ausência de alguém quando alguém se ausenta só por um minuto ou por vários anos, e que, em qualquer um dos casos, a saudade é quase sempre igual.
Com você eu aprendi a olhar o nada pela janela, só por olhar e ficar ali por quanto tempo quiser.
Com você aprendi que o mundo tem mais mistérios do que eu possa imaginar. E que você sabe o cheiro de cada um deles.
Com você aprendi a ter paciência, a esperar, a ser menos exigente, e reconheci o quanto é gratificante ter você na minha vida.
Com você aprendi o que é companheirismo, e que quem ameaça não é um amigo.
Com você aprendi a tomar vento no rosto um pouco antes de começar a tempestade.
Com você aprendi a comer devagar, a dormir mais e a beber muita água.
Que a alegria deve ser comemorada, anunciada e festejada.
Que você nunca faz cara feia e está sempre disposta a receber e dar um carinho.
Que pra você sou sempre importante, que seu amor por mim é sem limites e que nunca mediu o amor que tenho por você.
Com você aprendi a envelhecer e não deixar a velhice se instalar em mim. Os cachorros guardam o tempo em seus olhos cuidadosamente. Guardam cada minuto, cada hora e cada dia de sua existência, sem revolta pelo tempo passado e sem ressentimento.

Ela adormece ao som dos meus agradecimentos. Saio devagarinho, e ela fica dormindo, no tapete banhada pela luz da lua cheia. Olho aquela cena mágica e penso:

Minha doce Lua. acho que sempre vou me lembrar desta madrugada. Quando você for embora, o mundo não será mais o mesmo para mim.


- este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas - Segunda Edição do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e, a convidada Mariana Gouveia.

6 comentários:

Lunna Guedes disse...

Esses "humanos" nos são tão caros. Patrick tem dez anos e começou a mostrar a idade em seus contornos...
As vezes pensava "eles vivem tão pouco" mas depois de ver aquele filme "sempre ao seu lado" passei a pensar que eles vivem tempo suficiente porque não seria justo com eles. Chorei tanto vendo aquele filme.

bacio

rossichka disse...

I didn't have a choice - used Google translator which turns a text into a real mess, but still I felt your emotions and am deeply touched! Our dogs make us better and wiser persons... Their love is PURE.. I do hope your friend will recover soon!!!

mariana gouveia disse...

Emocionei-me. Chorei. Lembrei de uma madrugada antiga onde eu e Meg, um anjo que Deus me deu se foi. Mas não foi a doença que a levou. Foi uma dose de veneno que alguém jogou. Sei do amor que fala e esse, pleno, tenho e certeza de que ela sabe que em nenhum lugar do mundo poderia encontrar melhor humano pra cuidar dela. Um dia, inevitavelmente isso acontecerá. E de alguma forma, A Lua estará te acompanhando sempre. No coração. Beijos

Ingrid disse...

linda emoção querida..
estes animaizinhos nos cativam..
beijos.

Tatiana Kielberman disse...

Linda postagem, querida... sensível como você!

Impossível não se emocionar, principalmente após ter te ouvido falar da Lua já algumas vezes quando nos encontramos...

Beijo grande!

Jaqueline Köhn disse...

Olá!!

Que post mais lindo ...
Sinto muito por sua Lua, que ela fique bem!

Um grande abraço!