Poesia de Fernando Coelho















































Um dia o poeta amanheceu. E não desejava amanhecer. Era um dia plural, tudo igual. O poeta não falava. Não olhava. E o que escrevia não sabia. Maria bateu na porta (porta cheia de passados maltrapilhos). Trouxe água no cio e andorinhas cavalgando carambolas. O poeta se descobriu parecido com ele próprio. E tudo começou a acontecer com meio sol dentro do paletó de leques esquecidos do poeta. É Maria

Fernando Coelho





O dia rouba - do avesso e do direito -, o brilho de crinas da lua. Enraivecida de escuridão, desafeita pela desfeita da claridade usurpada, a noite rouba todo o dia e o esconde em seu barrado liquefeito. Descamba em negras choradas de arranhos, a própria noite desgrenhada sem sono. Maria, delicada, vara de bambu de orvalho, conciliatória, borboleta mãe de relvas e floradas, acha o meio termo na inexatidão do ermo sem trégua, delibera a paisagem cismada pelos seus anelos, e propõe, em finas palavras de lenços, o pôr do sol. Lua e dia entreolham-se e limitam-se ilimitados no cascalho do sol. Loquaz, Maria, amada, sai a varrer com sua vassoura de destinos, pingos do dia no riacho da lua.

Poesia - Fernando Coelho







"Uma vez Maria quis me ver feliz. Eu tinha sido pastor de lagartixas na infância. Quis que eu fosse pastor de suas cabras. Eram cabras de giz e leite. Eu pastoreava de noite, quando elas se alimentavam com capim de estrelas. "
 Poeta Fernando Coelho






"Maria brinca de empurrar a lua pra metade do céu. Não me espera hoje. Parte em sua carruagem de cigarras. Deixa em meu peito, o seu cheiro de borboleta. E só."
Fernando Coelho





"Maria me socorreu. Tristeza me engasgava. Eu quis me despistar de mim. Maria voltou de uma palavra que ia escrever em seu livro, ainda indecisa, a por maços de raízes de hálito em meus braços. Perguntei se ela trança chuva. Mostrou como se faz. E o que é colmeia? Mostrou-me abelha rainha grafando com favo um verso derramado. E este relâmpago flechado em meu peito, Maria? Ela arremessou o seu coração na frente. Sobre o amor, quase nem perguntei. Ela tapou os meus ouvidos e boca com os cabelos recém banhados em tinas de sol. No lugar de música, despejou flores em minha voz. Atravessava-me de calmaria. Como eu posso não amar, até a eternidade virar gente, uma mulher assim?" 
 Poesia - Fernando Coelho





"Parece que prefere escrever na escrivaninha do vento. É poeta. Descalça, destaca-se entre a multidão, seja de outras mulheres, seja de flores, seja apreciando uma exposição de Matisse. Os seus olhos são exagerados, a beleza não lhe poupa o horizonte. Veste-se com cordialidade, não quer assustar o próprio corpo, ou seja, vestido de renda guipir, longo, que não lhe cobre totalmente as pernas, nem as revele de maneira descabida. Não se controla nas ruas ao ver as mutilações sociais, olhares dedicados à tristeza, faces alongadas de desesperança. É quando ela escreve livros, com tintura de amor, aproveitando bandos de papel, que provoca revoadas de ideias e maços de sabedoria. A voz, com timbre de rio pensando, mãe do silêncio das palavras, emite um coral de sons apaixonantes. Sorri: talvez uma cigarra, talvez uma borboleta beijando uma tulipa, talvez um giz rabiscando um noturno rebento, talvez o limiar da alvorada. Não diz, jamais, que é forte. Apenas segue tímida, impenetrável, embora acessível como uma pétala. Não fala alto. O que grita, austera e ventilada, é a sua presença. Quando senta, acena, intuindo que todas as notas musicais pousem num piano Steinway. E ainda usa Chanel nº 5. Ela é assim. O meu maior amor. Maria, a única."
Fernando Coelho








MARIA, MONALISA DO MEU SEGREDO
"Sobre o intervalo do escuro com a manhã, entreabro as varandas da imaginação. Não seria invenção, Maria, o meu amor? Não, não é. Amo-a, é real, nunca platônica, longe, à beirada dos meus olhos desmedidos. Maria Cininha, a meu pedido, escondeu a minha Maria em sinais de cores ancestrais, delicadezas esotéricas, essência de orégano. Disfarça-a de tudo em traços finos, retratos de uma estrada do corpo, gentil e musical. Maria transforma-se em pseudônimo de água. Menina que enfiou-se num cisne. Andorinha de fiapo. Nuvem de barriga cheia. Mulher tarde cor de rosa. O nome verdadeiro de Maria? É Maria. A identidade secreta de Maria? A lua." 
 Fernando Coelho








"Maria mora no castelo da poesia. 
Onde ninguém pode morrer.
Maria é a minha porta secreta."

Poesia de Fernando Coelho






"Sim. Maria é o nome do meu único amor. De longe, ela acende meia lua dentro de uma lamparina. Quer iluminar a saudade escura em mim." 
Fernando Coelho








"Maria, o meu amor, nos momentos de conflito, parece uma menina. Ela quer infantilizar o mundo. Sonha que ele fique gentil. E seja tolerante." Fernando Coelho







"Por causa dos segredos de sua alma, a minha Maria chorou. Encheu os seus olhos com um rio nu. Maria está magoada depois que o espelho do dia revelou dores de cordilheiras solitárias, distâncias sem coração, ermidas batendo em suas dúvidas. Somente a imensidão do mar alivia a imensidão das dores de Maria. O meu mar, em prantos, lhe devolve a sua lua como uma lagoa de esperança no céu. E só. Amo Maria". 
Fernando Coelho






"O LUTO DE MARIA. Sim, ela está sem fôlego. O seu coração pulou do peito macio e bateu nas pedras do susto com os crimes. Maria, a amada que veio de longe me trazer perto, perto de tudo, trouxe nos cabelos alguma lama de Minas, dos ombros do Rio Doce, que nem tem foz nem nascente mais. Maria me diz que é mineira, de Governador Valadares. Maria me traz nas mãos rabiscos de sangue das ruas de Paris, metralhadas por homens de pólvora. Generosa como uma flor de pão, me diz que é das águas do rio sangrado. A minha Maria pretende me ensinar a ter esperança. Ela tem luto na alma. Sua fotografia é uma mancha de silêncio. Em tempo: Maria retorna à sua terra, Minas Gerais, lidera uma vigília com luzes de vaga-lumes nas mãos, sentada sobre um rio sem leito. Declamo um minuto de silêncio. Por Maria, meu amor, pelo rio morto."
Poesia de Fernando Coelho








"O meu coração ama Maria. No pescoço do meu amor, um colar com manchas da Via Láctea. Eu teci enquanto a noite dormia. Maria está linda com ele."
Poesia de Fernando Coelho






"Maria observou a fragilidade indecente dos pássaros voando. Asas beliscadas nas garras do vento. Sua voz exalava hálito de flores do campo. O coração de Maria era a fotografia de um punhado d'água. Maria alimentava-se de paixão que lhe derretia. Maria tinha a alma azul. E o poeta lhe deixava mole de amor, como gel de luz ou sêmen de cigarras no cio. E só. " Poesia de Fernando Coelho


"Maria invade uma pedra, o seu diário. Vê o pote suspirar. O movimento do seu mundo arquiteta varais de rãs. O que se alonga veste-se de cicatrizes. Uma garça na extrema deselegância das sombras usa um colar de água. Um amor descamba dos olhos como uma nuvem tentando agarra o resto do sol. Num pintassilgo, viaja uma orquestra inteira de murmúrios. Maria vê poesia ao derredor dos jasmins cheios de luas." 
Poesia de Fernando Coelho







"Maria pensa que ninguém pode perder um grande amor. Ela ensina as pessoas a sonharem. Num galpão sem telhado. Ela acha que tudo começa com a gente admirando as estrelas, que podem iluminar uma dúvida e aquecer qualquer coração."
 Poesia de Fernando Coelho







"Maria espumava o ar. Tentava pregar água. Tentava colocar cílios na brisa. Insistia em parar a terra. Tinha um dedal recolhendo o verão. Em noites, alimentava uvas com leite da noite. Insistia em dobrar o vento e guardar na gaveta. Maria tentava esconder a saudade numa caixa de sapato. Tentava erguer muros com pétalas. Disputava teias com aranhas pernetas. Um rio doce brincava de infância no quintal de Maria, onde ela lavava o sorriso. Tentava colorir trovões. Maria chama a vida de tentar. Maria me tenta. E só." 
Poesia de Fernando Coelho







"Maria palpitava suspiros pelos caminhos. Quando encontrava uma estrada de pernas cruzadas, esperava. Puxava uma margem pra sentar e dizia: "senhora estrada, venha comigo, lá longe é melhor do que aqui". Maria enchia bolas de destinos." 
Poesia de Fernando Coelho, só formosura...rsrsr



"Maria arrulhava. Emitia coração. Trabalhava duro. Rejuntava corações em arroubos de inanição. Um a um, enfieira de paixões como peixes vivos semeando ar, montava o seu quebra-cabeças de encontros. Alinhava tudo com orquídeas pomposas de vida. O perfume transluzia dos seus lábios com gosto de cocada. Eu amo Maria."
Poesia de Fernando Coelho






"Maria dava aula na ribalta de estrelas. As crianças, de mãos dadas, protegiam as palavras de amor que Maria grafava no quadro do arrebol. De repente, tibum, tibum, uma ou outra estrela cadente sentava na escola-de vento-cor-da-vida para aprender a piscar. O ajudante de Maria era um pintassilgo de girassol, depois que bicava as sementes de Van Gogh. E só."
Poesia de Fernando Coelho






"Maria amava música. Apreciava a de raiz. Quando o vento cantava nas folhas com nariz furta-cor. E as árvores, cegas de amor pelo chão, dançavam bolero (sem Ravel). Quando as flautas ficavam nas bocas da brisa. Ou quando as estrelas mais próximas – um bilhão de anos-luz -, de mãos postas, cantavam o coral da madrugada tinta de ansiedade. Maria compunha. Música de água. Sempre se apresentava no nordeste. Molhava o povo de melodia. Maria chovia notas musicais."
Poesia de Fernando Coelho







"Madrugada afiada. O frio corta nacos da luz. Maria tinha ruflar de cigarras nos olhos. Esticava linhas da noite para costurar asas de cigarras rompidas pela música. Asas de cigarras são transparentes, como amor novo. Trabalho de enfermagem difícil, pior do que remar canoa de folhas no céu. Maria se desdobrava em várias. A enfermaria de cigarras de Maria, tinha a cumeeira recoberta de cantos, folhagens de vidro e pano. E um pé de fruta-pão na porta. Curadas por Maria, as cigarras voavam como flor."

Poesia de Fernando Coelho







"Moro no planeta Maria. Nem descoberto pelo telescópio ALMA, prostrado no Atacama. Navego canoas de pedra. Maria cata notas musicais, e tempera berinjelas ao forno. Ela saliva fagulhas de orégano. Um planeta com borboletas de línguas rosáceas. Funciono como um bom varredor de casa. Caneta-vassoura nas mãos, eu empilho livros nos cantos. Formigas dão flor às páginas. Maria conversa com a poeira das estrelas trançando o ar. Tem arquitetura de lápis de cor. Tudo quieto, exceto quando as abelhas fazem amor, nos muros, com ferrão e tabatinga. O planeta, escondido num lugar onde ninguém pode adivinhar acordado, só não aceita excursão de agências de viagens de gente vazia com malas cheias. E só."
Poesia de Fernando Coelho 








"Raridade, ela pescava passarinhos em harpas. Nadava com o corpo de sereno seduzindo o mar com fome. Alisava os cabelos enrugados de velhas árvores. Escrevia o manual das sereias em papiro azul. No oco das casas regava raízes do passado. Não queria que pintassilgos aprendessem sobre saudade. Permanecia cachoeira no fundo do mar. Se metia dentro de buquês dourados. E não era flor. Era o cheiro. Maria tinha acabado de sair de um pincel de arco-íris. Minha imensidão soletra montanhas cheias de bem-te-vis. O meu quarto de dormir fica no vento. Maria ramifica amor em meus ouvidos. E pronto. "
Poesia de Fernando Coelho







"Cuidava de acordar sombras. O arrebol preguiçava. O poente sonava em seus braços festivos. Aperfeiçoava mexer em gafanhotos que não tomavam sol. Não sabiam que tinham sombra. Ela descobrira que ao meio-dia as sombras são iguais. Menos a das estrelas, se carregava, cada uma delas, emprenhadas em seus cabelos de algas e léguas. Maria mexia na pedra, mexia na montanha esverdeada, mexia na aranha miúda (daquelas de casa abandonada na boca do traste de si mesma), mexia na ramagem da unha-de-gato, do uxi amarelo, ipomeia rubra, ora-pro-nobis, glória-da- manhã, mexia nas trepadeiras que nunca acertavam entrar pelas janelas. Tinha gosto quando uma coisa e outra mudavam de direção e incorporavam outra sombra. Engraçado que a pedra resolveu levantar pra olhar a si própria, sombreando. Maria ajudou. Cada sombra nunca fica igual à coisa que reflete. Uma gorda, emagrece; uma fina, dança; outra maior, entorta; outra feinha parece deusa; outra bem bonitinha vira estrada. Maria sabia de tudo isso, e ainda recortava, cada sombra, pra fazer a roupa do poeta que lhe escrevia. O poeta de Maria vestia, fashion que era em sua irrealidade, fraques de palavras com sombra tomando sol. Maria fazia mágica para amar o seu amor. E todo mundo amava Maria. Maria ama o mundo. E só."
Poesia de Fernando Coelho










"Um dia o poeta amanheceu. E não desejava amanhecer. Era um dia plural, tudo igual. O poeta não falava. Não olhava. E o que escrevia não sabia. Maria bateu na porta (porta cheia de passados descalços). Trouxe água no cio e andorinhas cavalgando carambolas. O poeta se descobriu parecido com ele próprio. É tudo começou a acontecer com meio sol dentro do paletó de leques esquecidos do poeta. É Maria."
Poesia de Fernando Coelho






"Baaamm...paaaa...ssschiiii...envolvida, por acaso, com o ocaso, Maria deu de cara com o vento. O seu cílio superior direito, criatório de borboletas de papel de embrulho, atingido: uma marquinha de perfume que o vento trazia de ontem, lhe pespegou. Maria olhou, acostumada com seres invisíveis. O vento, cheio de ruas, rugas, lugares, pedaços de maresias, traçados de ilhas, poeira de cidades grandes e pequenas, traças de roupas velhas, cheiros de estradas de ferro, emblemas de velocidades nas bordas de sinos enferrujados, cacos de pedras de gelo, bancos de juras de amor, curvas de cabeça branca, se desculpou parando as folhas e os ciscos amassados da sarjeta. E pediu: “Maria, preciso de uma roupa”. Maria, com ouvidos apurados de tanto som de silêncios, atendeu. Vestiu o vento de flauta doce. E foi assim que o vento aprendeu a assoviar. E só."
Poesia de Fernando Coelho







"Maria fabrica borracha de apagar vento. Maria, me faz rumor do teu coração. Tenho o teu perfume entre os meus dedos. Como gosto de anoitecer em teus olhos. Maria, vem me buscar. Me habita em tuas flores do campo. Maria, me incandesce."
Poesia de Fernando Coelho 






"Oi Maria, queria ser Marcelo Gomes pra dançar o lago do coração com cisnes de ouro, apaixonado por você. Sonho com cada passo de Vaslav Nijinsk pra entortar e entrecortar você em meu corpo sem música. (O corpo de um homem da roça, como o meu, sabe se curvar para as árvores, plantas, lagoas, sapos, formigas, borboletas, num balé maluco, dança quando come pão e bebe o vinho da paixão com peixes e sereias das folhas)... Eu queria ser mímico, Ricardo Bandeira, por exemplo, para interpretar você em você, mas comigo gesticulando. Eu queria interpretar Vinicius de Moraes, ou um soneto dele, qualquer um, que eu pudesse copiar e te mandar na aba de uma rosa, para poemar você de exaltação dos sinos, e flautas, e aves voando sem destino, e Neruda admirando o Pelourinho e louco de amor por Matilde. Maria, por sua causa, eu me chamo João, José, Pedro, Chico, Antonio, Joaquim. Me chama, Maria, de qualquer coisa, qualquer nome. Mas me chama pra perto de ti."

 Poesia de Fernando Coelho 








"Maria carregava um camafeu na gola do vestido. Era a porta para o jardim dos namorados. Todo dia, quando voltava de sua plantação de faces leves, retida em fotografias dos trigais, dos arrozais, dos milharais, das ramas de centeio (tudo regado com horizonte), Maria queria mostrar pra alguém. Um e outros tinham pressa, para o nada do fazer. Então, Maria abria a varanda carregada de borboletas virgens e umedecida de esperas no tal dia dos namorados. Somente nesse dia, parece, o pessoal de sua região acordava mais disposto pra amar, ou arrependido porque não amava de outrora. Maria se arregaçava de batom a mostrar que vivia a vida amando, que nada apodrece com o amor, que a margem enlaça o rio, que se escreve sobre a água, que até a chuva horizontal se torna, para quem ama se afogar deitado no amor. O amor fala trastes, roupas, sexo, lápis, filhos, rádio tocando no escuro dentro de um pé de pau, cantos de pintassilgos entre os dedos vagos, na ribanceira de um beijo curvado. Maria só quer dizer que o dia dos namorados vai ser ainda amanhã, e depois, e depois, e depois...ela até contratou um poeta que corre as ruas, capengando de rasuras, pra cima e pra baixo, avisando isso num megafone de letras..."

Poesia de Fernando Coelho






"Era um dia em que o vento machuca a terra. Tecidos de orvalho arremedam rendas da madrugada. O silêncio se mostra como passarinho de cabeça pra baixo. Uma estrada, longa, infinita, resolve sentar nela mesma pra descansar. O vinho brota do parreiral antes das uvas. E o amor vira um cobertor de sorrisos. É um quadro pintado por Maria. Tão real e belo quanto ela me toma o coração apaixonado."

Poesia Fernando Coelho.









"O dia rouba - do avesso e do direito -, o brilho de crinas da lua. Enraivecida de escuridão, desafeita pela desfeita da claridade usurpada, a noite rouba todo o dia e o esconde em seu barrado liquefeito. Descamba em negras choradas de arranhos, a própria noite desgrenhada sem sono. Maria, delicada, vara de bambu de orvalho, conciliatória, borboleta mãe de relvas e floradas, acha o meio termo na inexatidão do ermo sem trégua, delibera a paisagem cismada pelos seus anelos, e propõe, em finas palavras de lenços, o pôr do sol. Lua e dia entreolham-se e limitam-se ilimitados no cascalho do sol. Loquaz, Maria, amada, sai a varrer com sua vassoura de destinos, pingos do dia no riacho da lua."

Poesia de Fernando Coelho!








"Maria pendurava as cartas que escrevia no poente. Escrevia cartas sem letras. A rogo de pessoas que declinavam o nascer do dia. Em suas cartas aconteciam multiplicações de caminhos sem chão. Maria escrevia cartas que não se guardam. As cartas de Maria tinham o dom de serem as próprias gavetas. Quase borboletas. Maria era das coisas ingênuas. Embrião da legião da intimidade, revelada das beiradas de tudo. Escrevia com teias. Escrevia com chuva, pra quem chorava muito. Escrevia com sal, a pedido do mar. E primeiro - exemplar -, assinou um abaixo-assinado de protesto em nome das formigas dos roçados cozidos. As famílias das formigas não suportavam mais o mijatório dos homens sisudos e formados nas escolas das ignorâncias. Eles não queriam matá-las de afogamentos no engano de suas sujeiras de descaramentos, mas escorraçá-las de vergonha e despudor. Maria, a que eu amo, reprova grandões miseravando a vida dos menores. Estes homens são culpados dos arranhões nos pedregulhos. Desatinaram as formigas, mas até hoje desconhecem um amor inaugural. Maria também escreveu isso pra mim, me contou como me amava: ao meio-dia, hora em que se dividia em duas. A que me amava e a que me esperava. Maria é uma carta presencial de saudade em minha vida. Eu amo Maria." Poesia de Fernando Coelho








"Maria é latifundiária da memória em íntimos segredos dos vazios. Adquiriu o mais fosforescente e carente endereço da região aonde anda, segurando velhos paletós encardidos de cupins e sonhos desfeitos. Costura trapos do sol e faz flores com eles. E é onde lírios dormem ao meio-dia sobre dormentes sem trilhos soltos no capinzal. Maria toma conta de um lugar onde as pessoas deixam as suas verdades e encantamentos insossos. Um estrado de cantorias de loucos que varrem pistilos e polens. Maria achou por bem, primeiro, abrir um negócio de precisão: inaugurou uma letraria. Uma loja de tijolos de palavras. Para consertar palavras capengas ou murchas, ou indesejadas em certos tipos de escritas, aliás, dar socorro para letras quebradas, arranhadas, atropeladas dentro de palavras formadas por pensamentos erradios e sem norte. Era esparadrapo em caligrafias ofendidas o que se precisava ali. Muletas em expressões de amuleto, mas com outro significado. Tipoia em gritos de gente que não tinha boca. A palavra que mais carecia de curativos era mesmo a palavra amor. Usada, esfarinhada, vulgarizada, mal pronunciada, engasgada de malquerenças, esganiçada de nadas. Maria não podia pagar muito por este trabalho, embora carecia de um especialista em esquisitices. Precisava de um funcionário que não dormisse, que não fechasse a letraria e que vivesse somente de amor, para agüentar tanta consumição no trabalho. Contratou um poeta. E o negócio prosperou, parece. De lucro irreconhecível." Poesia de Fernando Coelho!








"Ópera de solicitudes para Maria. Com mil araucárias, mil jequitibás, mil pés de cedro, ele escreveu com resina e prata, a partitura do seu amor por Maria. Mil notas musicais desabalavam no âmago das árvores suspensas e possuídas, de mil sons raspados das cascas do dia, e um coral de mil bocas de saudade. Maria ouvia e prometia, com voz de orvalho, retalhos de delicadeza, embargada pela máscara do mar, que um dia, voltaria. Ele e a sua orquestra de mil instrumentos de vidro e galhos secos, compuseram uma música azul. Maria interpretava o amor dentro, como uma ostra de ouro e cobalto. E amava. E só." Poesia de Fernando Coelho







Maria é latifundiária da memória em íntimos segredos dos vazios. Adquiriu o mais fosforescente e carente endereço da região aonde anda, segurando velhos paletós encardidos de cupins e sonhos desfeitos. Costura trapos do sol e faz flores com eles. E é onde lírios dormem ao meio-dia sobre dormentes sem trilhos soltos no capinzal. Maria toma conta de um lugar onde as pessoas deixam as suas verdades e encantamentos insossos. Um estrado de cantorias de loucos que varrem pistilos e polens. Maria achou por bem, primeiro, abrir um negócio de precisão: inaugurou uma letraria. Uma loja de tijolos de palavras. Para consertar palavras capengas ou murchas, ou indesejadas em certos tipos de escritas, aliás, dar socorro para letras quebradas, arranhadas, atropeladas dentro de palavras formadas por pensamentos erradios e sem norte. Era esparadrapo em caligrafias ofendidas o que se precisava ali. Muletas em expressões de amuleto, mas com outro significado. Tipoia em gritos de gente que não tinha boca. A palavra que mais carecia de curativos era mesmo a palavra amor. Usada, esfarinhada, vulgarizada, mal pronunciada, engasgada de malquerenças, esganiçada de nadas. Maria não podia pagar muito por este trabalho, embora carecia de um especialista em esquisitices. Precisava de um funcionário que não dormisse, que não fechasse a letraria e que vivesse somente de amor, para agüentar tanta consumição no trabalho. Contratou um poeta. E o negócio prosperou, parece. De lucro irreconhecível.

Poesia - Fernando Coelho










Quando algum anjo entorta a asa, Maria coloca coração no lugar. Onde tem parede, ela põe coração. Ela derruba muros com o coração. É Maria do amor, o meu amor.
Poesia - Fernando Coelho




Quis esticar o tempo para Maria ficar. Amarrei um barbante de neblina no pescoço do dia e puxei até o outro dia. Fiz por amor.  Poesia - Fernando Coelho




Maria anda descalça no leito dos rios mansos. Acarinha as ramagens de capim e mostra ao vento, a maneira certa de ventar nas cigarras que cantam, desabaladas, nas árvores de gomos encrespados. Maria compõe músicas bebendo água nos riachos. No cume de uma folha amarela, no gume de um coacho preguiçoso, no silêncio que aparece logo depois da queda do sol no oeste, Maria escreve. Poemas de amor. Ensinamentos de uma mulher tão simples e bela, que gosta de escrever para todos. Maria ainda canta, ouve música dentro das conchas que encontrou na primeira vez que visitou o mar. Maria é flor do ambiente. Entrega-se ao orvalho, ao monturo dos galhos, à cantilena dos gravatás. É Maria, a dona de todo o amor do mundo. E só. Fernando Coelho




"Maria trabalha numa escola desde quando era menina. Era destas meninas bem pequenas e bem sábias. Todo dia ela via as criancinhas magrinhas. E hoje, resolveu mudar tudo. As crianças estudavam em livros de pano. E as letrinhas eram muito magrinhas. Maria queria que as crianças tivessem fartura. Contratou um assoprador de palavras. Eu achei bom. Além de amar Maria, sou o assoprador de palavras dela. As crianças se dependuram em palavras mágicas. E só."
Fernando Coelho



Maria chegou com um rio entre os dentes. Em cheguei com a caatinga nos pés. Maria me deu uma mordida de água de flor. Eu despertei floresta de letras úmidas.  Fernando Coelho




"Maria enrola um colar de tintas. Numa infinita linha de uma araucária que variou. Pegou vermelho de um rosto da Ilha de Páscoa. Assobiou um amarelo, como a chamar um passarinho, de Tarsila. Do vapor azul de Van Gogh clareou o fecho da tarde na enfieira. Di Cavalcanti não escapou. O ocre apareceu nos elos, entre um tom de mar de Carlos Bastos e um rabisco, saltitante, de roxo, assoprado por Carybé. Maria cria tintas novas. Ela quer pintar o amor, se cravejar de aquarela. Maria, meu amor." Fernando Coelho






Porque é Maria. Sabor de uva nos dedos. Maçãs nas faces de néctar e vermelho. Cheiro de ingá nos olhos. E morangos perfilados no lábio inferior. E pitangas dançando valsa no lábio superior. Porque é Maria. Mel nas mangas, de pernas de fora, colam o seu vestido no corpo. Maria é toda sapoti. Porque é Maria, a amada, pinga suco de orvalho de sua boca florida. Maria! 
Fernando Coelho






A beleza se veste de Maria.
Fernando Coelho









Maria deixou um bilhete: Poeta, hora de mudar. De agora para depois. Te cubro com um véu de estrelas. Eu mesmo bordei todas, uma a uma, tiradas novinhas do céu.
Fernando Coelho





Maria tem uma tecelagem. Trança sombras que escapam das paredes de tijolo. Dá vida a velhas fotografias cor de ocre. Mas me desenha com grafite de água e púrpura. Me pendura no horizonte quando o sol, distraído, pisca e olha para o outro lado. Maria me leva na barra da saia. Eu vou. Tenho sempre uma chance de continuar aconchegado ao amor com que ela brinca de pular corda comigo. E só. Fernando Coelho





Maria me viu passarinho. Me deu ninho. O colo.

Fernando Coelho




Eu tiro rolhas de garrafas. Daquelas que blindam palavras afogadas. Não posso escrever para Maria, a poeta dos cabelos de flocos, com palavras amarrotadas pelo entrave amargo dos oceanos. Não posso utilizar palavras murchas de som e entregar buquês de frases feitas nas mãos de flor d´água de Maria. Hoje, que Maria demonstra mais esbeltez nos olhos outrora despetalados, mais coragem em vasos de iluminação, varro a casa do vento. Deixo os quatro cantos limpos. Para receber o perfume de Maria. Vou enxaguar cada palavra, todas as que nunca foram ainda pronunciadas por ninguém, inclusive as que sonhei amanhã. As de amor, lavo com maços em rebentos de lavanda. As de ódio, esfrego com bucha de ar e sabão de plâncton. Maria, o cofre do arco-íris, reúne em seu coração o esmalte do dia. Generosa, invade o mundo em silêncio, sorri em lantejoulas, ama. E só.

Fernando Coelho




Maria afasta os peixes dos cílios do mar. Na dança das ondas, escondidas debaixo do sótão da lua, ela é a maior bailarina. Inventou as barbatanas de anil. São as suas sapatilhas mágicas. E só. (Ah! Maria é o meu amor.)

Fernando Coelho





Maria deixou um recado: "poeta, o vento do outono chega. Pegue um punhado dele pra você. Jogue para o alto e voe. Precisa de asas? Use as minhas. Mas poetas têm palavras. Voe e volte. Maria..." 

 Fernando Coelho




A minha poesia fica bem fraquinha perto de Maria. Vejo o mundo no que ela escreve. Conheço os lugares quando ela viaja. Ouço os segredos dos rios por causa dela. Não sou bom de falar sobre Maria. Sinto saudade e tenho vontade de chorar. Sou um poeta bem lerdo pensando em Maria.

Fernando Coelho




Guardo Maria num escapulário de rio. Ela estuda astronomia. Diz que a poesia é o jardim de infância da lua. E me ensina a ir para o céu. Basta ser beijado pelo seu suspiro. 
Fernando Coelho


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