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Diários com relevo e textura


Há 6 anos atrás fiz uma pesquisa para o Programa de Gerontologia da PUC sobre Baús de guardados de senhoras idosas. Foi um dos trabalhos mais gratificantes que fiz. Na postagem de hoje para o  Diários das Quatro Estações, fui buscar parte deste trabalho para mostrar a vocês. É a entrevista e a visita que fiz no baú de guardados de Dona Rosa de 82 anos que tinham dentro deste baú  alguns diários de sua juventude. Foi muito bonito de ver e ouvir suas histórias e ver que seus diários adquiriram texturas e volume através dos objetos que ela colou em suas páginas.


 As vezes, abro o meu baú e revejo, um a um, o amontoado de sonhos, já envelhecido, que ali guardei. Estão velhos como eu! Minha filha diz que não sabe por que guardo tanta coisa sem importância. São sem importância para ela, eu não ligo quando ela fala. Mas de grande importância para mim. Neste baú guardo diários repleto de cartas de amor do meu primeiro namorado. Hoje o rosto dele é todo apagado, ele já deve ter morrido, mas mesmo assim permanece na minha lembrança graças a este papel amarelado. Acho que eu volto ao meu tempo de menina!”

Enquanto narra, os olhos de Rosa (82 anos) brilham mesmo, como de uma menina.
Ela continua:

“Que bela letra. Lamento não me lembrar muito bem do rosto dele. Mas ainda me dá muita emoção e saudades. Não é engraçado?”

O Diário que Dona Rosa tem nas mãos é um belo caderno com capa florida em tecido amarelado, não fecha por causa de tudo que tem anexado as suas folhas. Uma verdadeira cartografia pessoal. Tem ingressos, papeis prateados que foram lançado no céu do quarto centenário de S. Paulo, cartas de amor, cartões dos filhos, flores secas etc.
Dona Rosa conta do namorado, de quem que conserva a carta. Mas diz que seu rosto é apagado, como se cada ano que passasse ele fosse ficando transparente, embora, como ela mesma diz, tenha tentado de todas as maneiras reter a sua imagem, já que não tinha nenhuma foto; mesmo assim, não conseguiu, e hoje ela própria tem noção de que o seu rosto já não tem mais contorno, como se nunca tivesse tido. Dona Rosa comenta:

“Só sei que não foi invenção, pois tenho este diário e estas cartas comigo.”

Pergunto a Dona Rosa desde escreve diários.

“Não me lembro bem, mas desde muito jovem, quando comecei a ter meus segredos. Antes eu escrevia e escondia em uma  caixa de chapéu da minha mãe. A caixa de chapéu de antigamente era linda. Você já viu uma? Dali surgiu a ideia de guardar coisas importantes anexadas ao diário, e que só pertenciam a mim. Quando casei, com 18 anos, levei-a comigo e nunca contei ao meu marido o que tinha dentro. Depois as crianças foram nascendo e a história foi ficando comprida. Quando minha sogra morreu, herdei alguns móveis de sua casa e este baú veio junto. Logo o adotei como meu baú de guardados, onde guardo meus velhos diários. Há mais de 30 anos não escrevo mais nada, a vida  vai apagando a vontade (...) Acho que ele morre quando eu morrer. (...) Não vou estar aqui para lamentar.

No baú de Dona Rosa vi 4 diários, todos com objetos colados dos mais diversos, emprestando aos seus diários relevos e texturas. Algumas diários estavam danificados e rasgados, pelo excesso de colagens em suas páginas. Me lembro que ela me disse que no tempo em que era jovem não se tirava muitas fotos e que são os diários que preservaram muitas das suas sensações e imagens de um tempo que já se foi.  

Comentários

Que postagem maravilhosa,que assunto delicioso.Amei a historia desta senhora, estou com quase 64 e também tenho tantas coisas guardadas..tantas recordações!Parabéns pelo trabalho vou começar a procurar um baú....Seus trabalhos tem uma delicadeza que amo!Não sou artista...mas sei o que é bem feito. Abraços
Ingrid disse…
As lembranças ...
Que bom que podemos relembrar,e se desta forma...
Uma delicia realmente ..
Beijos querida.

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