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Carta a Matisse, de 2006








São Paulo 25 de outubro de 2006.



Senhor Matisse, eu gosto muito de cozinhar. Acho a cozinha, um laboratório de sabores e aromas. É uma espécie de alquimia. Não é mesmo? Cozinhar é uma arte que se aprende todos os dias. O próprio ato ensina por si só, de forma silenciosa, escutar quando o óleo quente diz chega! Quanto de água se coloca no arroz para não afoga-lo, ou o ponto da batata para o bolinho recheado de  carne moída. Nem sempre acerto, mas tenho sempre existe a chance, de melhorar na próxima vez.  A cozinha é lúdica! Não é raro eu me “pegar” cantando e dançando  enquanto cozinho. Todos os atos criativos são formas de divertimento. Eu penso assim... O divertimento é a raiz de onde brota a arte original; material bruto que o artista canaliza e organiza com as ferramentas do conhecimento e da técnica. Cozinhar também é uma arte. Mas a dor também pode transformar uma comida. Vi um filme há pouco tempo atrás, em que a protagonista chora fazendo a massa do bolo do casamento da irmã, que iria se casar com seu e ex-namorado e seu grande amor. Suas lagrimas desabaram na massa e quando os convidados comeram o bolo, todos caíram em prantos.  É só um filme, mas acho que a alegria e a tristeza também são ingredientes da comida.  Rsrsrsr . Minha avó sempre dizia que não se deve fazer a massa do pão quando se esta triste, porque a massa “desanda”. Porém se estiver feliz a massa do pão, quando vai ao forno, exala um perfume tão denso que, se é capaz de jurar, que podemos guarda-las em frasco como os perfumes. O senhor deve estar entendendo o que estou querendo com esta conversa gastronômica, não é mesmo? Mas... Senhor Matisse, com a alquimia das cores não acontece o mesmo? É um mundo bem parecido, só que a comida alimenta o olfato e o paladar, e as cores o olhar.
Das cores não preciso lhe falar. Com o senhor, o mestre das cores, seria uma heresia... O senhor não tem ideia do quanto aprendi sobre as cores lendo suas anotações, observando seus quadros e seus recortes. O Caracol é uma das suas obras com a qual mais aprendi.
É uma verdadeira alquimia, não a mistura das cores entre si, mas obter com as cores, efeitos de plena concordância, apoiando-se ora no parentesco ora nos contrastes entre elas. Aprendi com o senhor a escolher as cores dos meus trabalhos me apoiando não em teoria, mas na observação e nos sentimentos. Sempre tomo cuidado para que as cores, por mais belas, não sejam descuidadamente colocadas uma ao lado das outras; é preciso que essas cores reajam umas sobre as outras. Conforme sua orientação.  Porém, nem sempre consigo...rsrsrsrs

Voltando à alquimia da cozinha. Como nas cores, às vezes não adianta misturar ingredientes em uma receita. Às vezes é melhor combinar lado a lado estes ingredientes, isso pode ser muito mais saboroso, não tenho razão? Rsrsrs
Olha Sr. Matisse, que cores, comidas e criatividade são uma instigante combinação, há melhor lugar para exercitar a criatividade e a intuição do que a cozinha?  Às vezes, uma forma de descobrir a criatividade é na frente do fogão... Um prato elaborado é muitas vezes uma vitória pessoal, resultado de deixar fluir a criatividade e entrar em contato com o poder pessoal que emana do próprio ato criativo. Antes mesmo de experimentar um prato, as cores as texturas e formas apresentada são o que chama a atenção. Aqui a criatividade é decisiva, não é mesmo? Depois, na elaboração, vamos de novo contar com a criatividade para combinar os ingredientes, por exemplo, para fazer o melhor bolinho de arroz, misturando arroz cozido, queijo parmesão, suco de limão e muita salsinha... rsrsrsrs pura criação esta receita, sem medo de experimentar.
A mente criativa brinca com os objetos que ama! O pintor brinca com a  cor e os espaços, um chef de cozinha com o fogo e os ingredientes. Nada dá mais prazer do que fazer o que gostamos. Forte estimulante da criatividade. Não é mesmo? Isso aumenta a variedade de meios capazes de ampliar nossas possibilidades de expressão; que nasce da pratica do divertimento, do exercício, da exploração, e da experimentação. Assim fugimos da rigidez do coração... rsrsrsrs
Sempre tomo cuidado, Senhor Matisse, com uma armadilha muito comum no campo da criatividade. Não podemos nos expressar sem técnica, mas não me deixo encurralar no profissionalismo da técnica, se não, perco a chance de me entregar ao ocasional, ao acaso, ao acidente, que é essencial para a inspiração.
Sr. Matisse, o senhor soube do jantar na casa de Gertrude Stein? Quando Alice B. Toklas preparou um robalo assado ao forno com vinho e o decorou com a intenção de agradar o senhor Picasso? O peixe depois de pronto recebeu uma camada de maionese tingida com o molho de tomate... Meu Deus! Acho que o sabor não ficou dos melhores... Rsrsrs. Sobre a maionese tinha uma camada de ovos cozidos. Separado a gema e as claras, formando desenhos amarelo e branco, com trufas e ervas fina...  Quando foi servido, Picasso exclamou que estava uma beleza, mas que aquele peixe teria que ter sido servido a Matisse... rsrsrsrsr. Bem, temos que admitir que estava bem colorido, sobre o sabor nenhuma palavra. Rsrsrsr
Senhor Matisse depois desta carta falando tanto de comida, vou comer  torradas quentinhas com chá e me preparar para dormir.... Aqui na minha sala, de onde escrevo para o senhor, tenho um fio de luzinhas coloridas, que sempre mantenho em meus ambientes, seja de trabalho ou na residência. Eles conferem um ar mágico e colorido ao lugar, acredito que em um ambiente assim, acendemos nossa sensibilidade e extraímos prazer e vida pulsante... Rsrsrsrs.  Continuo esperando sua resposta, quem sabe o senhor poderia ampliar meus conhecimentos me escrevendo sobre as cores...
Muito Boa noite

MariaCininha


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